quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Ê paixão!





                Estou treinando para ser escritor, para um dia quem sabe, terminar um livro que começo. Como terminei um dos blocos de estudo do meu cursinho de roteirista, on line decidi comemorar. Resolvi ir buscar uma pizza para comer aqui em casa mesmo. Sou apaixonado por pizza. Faz tempo que não como. Uns quinze dias, dez horas e cinquenta e sete minutos... contar segundos é paranoia... está bem, vinte e sete segundos, vinte e oito, vinte e nove... enfim. Fui a pizzaria. Quando cheguei o pizzaiolo e a garçonete estavam conversando sentados nas mesas do lado de fora. Respirei fundo e perguntei:
- Ainda não sai pizza?
                Pareceu que a minha voz transparecer calma e segura, o que é comum a pessoas que não são viciadas em massa, o que decididamente não sou... O garçom parecia desconsolado, o que cooperou para minha sincope. Após alguns segundos de tensão, pré-surto pela perspectiva da não pizza...
- Sai, sim.
                Ufa.
                O pizzaiolo, já um senhor, não se conteve e me perguntou, sem muita cerimônia, se eu sabia “mexer” com celulares, ao que respondi.
- Depende do celular...
                Seu olhos se encheram de esperança e ele matracou:
Não consigo ligar, sem entender nada do que tem aqui.
                Jogou o celular na minha mão como quem joga os problemas ao deus dará esperando que Deus, o cosmos ou qualquer coisa resolva. Peguei o celular, não sei se tinha escolha, mas tentei de coração.
- Ah! Está em Árabe, acho que você deve ter colocado sem querer – respondi coçando a barba.
- Verdade, eu estava tentando “mexer” e apertei uns botões que não sabia direito, ficou tudo confuso...
                Mostrei o celular. Como se ele já não tivesse visto ou como se ele entendesse alguma coisa de Árabe. Peguei de volta e por intuição e pré conhecimento do aparelho, consegui colocar em português.
- Na tentativa de resolver o problema do Árabe, você colocou no “Modo: Avião”, por isso não conseguia ligar. – decretei. – Vou voltar para o “Modo: Dual SIM” e liberar as ligações... Pronto, pode usar.
- Ah! No modo avião... Sim, Dual SIM, você falou?...
- Isso, agora pode falar. – Falei.
E fazer minha pizza! Pensei.
- Só uma pergunta.
- Hum?... (ai, ai...)
- Como você sabia Árabe para mudar para o Português?
                Ora, não sei de onde e em milésimos de segundo veio à mente o conselho de dez entre dez autores do meu cursinho online, livre, de escritor (pelo menos é o que afirma um deles): Deixe livre sua criatividade, conte histórias do seu jeito e veja se as pessoas acreditam, se há furos que precisam ser preenchidos em sua narrativa.
                Bolei, de pronto, uma história estapafúrdia...
- É que sou Árabe. Na verdade filho de Árabes. Nasci no Brasil, mas fui criado com os costumes de lá, fui cedo pra lá, sabe? Eles me mandaram de volta pra explodir um ponto turístico da América. Como eu só tinha contatos aqui em Feira de Santana resolvi vir para cá...
- Hã?! – Perguntou crédulo.
Engoliu, pensei. Emendei:
- É, procurei por um ponto turístico em todos os lugares da cidade e só encontrei um. Quando mandei o relatório do Feiraguay (Um shopping popular daqui) para os líderes do movimento, eles me proibiram de agir, cortaram a minha verba e mandaram uma carta muito mal educada.
- Lógico você queria explodir a porcaria do Feiraguay – Falou com desdem.
                Engoliu, regozijei.
- Eles acharam o lugar ótimo, mas disseram para abortar a missão por haver ligação direta do movimento com o submundo do Feiraguay e...
Parei, afinal não é um exercício para se tornar um mentiroso, é o de criar mundos críveis em que as pessoas possam confiar.
- É brincadeira...
- hã?
- Zuação... Ri um bocado.
- Ah! Pô quase me enganou.  – Falou o senhor, um pouco constrangido.
– Também com uma barba dessas... – Cutucou, com um sorriso sem graça. – Bom, vou fazer sua pizza.
- Opa! Valeu! – Falei ainda rindo.
                Fiquei ali uns quinze minutos remoendo a história em busca de falhas e rindo sozinho.
                Engoliu... Engoliu...
                A pizza chegou, nas mãos da garçonete. Ela abriu na minha frente e fez questão de frisar bem animada:
- Calabresa! O pizzaiolo caprichou, acho que você ganhou um amigo.
                O cheiro era apaixonantemente calabresa, entrou pelas narinas e me fez voltar do meu mundo. A fome avisou sua presença com uma sensação impar nas entranhas e a boca se encheu de água. Ela deve ter visto meu estado de êxtase momentâneo na frente do objeto de paixão.
- Você deve gostar muito de pizza, hein?
                Um turbilhão de ideias sem pé nem cabeça começaram a tomar forma para uma nova jornada, uma nova aventura, um novo mundo... Foi quando entrei em crise. Minha pizza, minha paixão... Comer? Criar? Criar? Comer?...

- Bom, é que nos tempos em que vivi na Itália, como zoobotânico, sabe?...

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