“A teoria dos afetos e a Teologia da empatia.”
Começo com a máxima Freudiana de que “tudo o que me afeta é meu”, enfatizando as relações pessoais no âmbito da empatia com o necessitado. Se um evento relacional me afeta, seja qual for o tipo de sentimento que me envolva, informa-me que esse sentimento já estava adormecido em mim. Já li que quando nos identificamos com um poeta, na verdade ele apenas vestiu pensamentos que ainda estavam nus em nós. Quando nos incomodamos com alguém muito orgulhoso, nossa negação ao nosso próprio orgulho nos impulsiona negativamente contra essa pessoa. Somos afetados pelo que já existe em nós. A honestidade em relação a quem nós realmente somos pode ser revelada em nossas aversões a determinadas atitudes ou palavras que realmente nos afetem de forma surpreendente. Filmes que me fazem chorar ou me fazem rir, filmes que não me dizem nada e que afetam a tantos. Brincadeiras que são tomadas como de mau gosto por uns que para outros não passam de gostosas infantilidades. Tudo isso passa de meras relações culturais. Não dizem respeito ao todo, mas a individualidade.
Amo o filme fabuloso destino de Amélie Poulain. Me emociono com a simplicidade de sua narrativa e da forma simples como complexas teias de relacionamento e de ressentimentos são quebradas com a simplicidade. Me afeta. Me emociona o fato de saber que problemas complexos podem ser resolvidos com empatia. Notícias sobre Pedofilia, miséria, fome. Apesar de entender sobre como tudo isso se processa da sociedade, não conseguimos nos afetar com uma cena de fome de uma forma tão verdadeira como alguém que já passou por essa situação. Pessoas que são afetadas de uma forma tão intensa e sincera que não encontram outra solução a não ser se envolver como a situação.
Não defendo um experimentalismo prévio para os que se dispõe a ajudar. Mas acredito que tudo essa disposição em afetar e ser afetado está no dia a dia de Deus em sua criação. Cristo é prova eternamente viva dessa empatia do Próprio Deus como a sua criação. Encontramos um Cristo que se alegra em festas, que chora a dor das pessoas, que se comove com a doença e o sacrifício dos que o procuram para serem curados, faz amigos e chora a morte e a dor da perda com Marta e Maria, mesmo sabendo que iria ressuscitar Lázaro. Um Deus que suou sangue por amor. Deus em Jesus se identifica tanto com a própria Criação para resgatá-la que até hoje homens juram, de pés juntos, que um Deus tão grande não poderia se entregar assim por suas criaturas.
Somos afetados pelo perdão desprovido de senso, demonstrado na Cruz. Somos afetados por alguém que tem todo o poder e usa para ser humilhado e morrer. Somos afetados não pela cura, mas pelo perdão dos pecados a cada milagre. Somos afetados pela postura de entrega total. Somos afetados por posturas inteiramente altruístas encontradas em Cristo. Me afeta o fato de ser tão carnal e miserável e mesmo assim as misericórdias do Senhor se renovarem a cada manhã. Isso me constrange. Me faz olhar para meu próximo e deixar para o lado todo o tipo de preconceito. Mais, me leva a entender que como discípulo preciso me deixar afetar e ser afetado por quem está ao meu lado.
Como Cristão devemos carregar o que Tiago demonstra em sua carta como verdadeira religião. Manter-se irrepreensível, como um sinal que Deus tem a primazia de nossos atos, mas não podendo esquecer o necessitado, ali ilustrado pela criança e pela viúva. Precisamos encontrar na simplicidade do evangelho uma forma de transformar realidades. Mas só entenderemos o caminho de volta para eles quando nos colocarmos no lugar de cada necessitado, não de forma abstrata, distante. Devemos nos deixar afetar por seus problemas e deixá-los ser afetados pelo evangelho que reluz em nós. Agentes de transformação que se deparam com o choro, e choram; com festas, e se alegram, que encontram a dor e se afetam com o resultado do pecado que também faz parte de nossa própria natureza. Somos todos culpados. Somos todos responsáveis. Eu e você, igreja de Cristo, precisamos aprender a ser afetados pelos que necessitam, não por demagogia, filantropia ou ideologia, mas por que encontramos na humanidade caída algo que é nosso. Devemos afetá-los com a eternidade que foi colocada em cada um de nós, para que o eterno Deus de amor seja revelado a todos!
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