sábado, 24 de setembro de 2011

Relações com a Modernidade




Compramos um computador! Não achei que seria uma revolução na minha casa,  principalmente, não achei que afetaria tanto o meu pai. Aos poucos esse novo eletrodoméstico vem domesticando todos os seres pensantes da casa. O mais engraçado é que a Tv, antiga dona de nossas horas de ócio, vem perdendo a sua majestade. Não que ela tenha ficado defasada. Aliás, viva à corrida espacial, viva ao inventor do satélite, viva ao mané que teve a idéia de enviar sinais do mundo inteiro pra minha casa, enfim, vivas ao cartoon e a todos os canais água com açúcar que me alienam e me afastam dos meus afazeres realmente necessários. O computador... Acho que falávamos dele... Sim, sim, agora me lembro bem o que me fez escrever nessa hora em que poderia estar dormindo.

            Hoje pela manhã meu pai recebeu um telefonema de uma antiga amiga, formada em Letras como ele, e discutiam sobre literatura (livro de um. Poesias de outro...) Decidi mostrar a meu pai o que anos de ócio, proporcionados por ele, tinham feito com a minha cabeça. Mostrei-lhe meus poemas; textos livres, como esse; e versinhos. Não todos, mas uma boa parte. Uma verdadeira seleção. Mais surpreso que ele, com os poemas, fiquei eu por ele ter gostado; – Isso deve ser genético – disse ele. Acreditem, esse é o maior elogio que ele conseguiria fazer, fiquei extremamente lisonjeado. Há anos mostrei alguns poemas a ele. – Isso não é poema! Tinha carregado esse trauma até hoje.

Acho que me aperfeiçoei na escrita desses formatos por rebeldia à forma parnasiana imposta por ele como forma perfeita de expor idéias. Agora, na verdade, não sei se estou feliz por ele gostar ou triste por não ter mais o conceito dele com incentivo. Insanidade minha, mas a relação pai e filho é cheia de insanidades bilaterais, ambíguas e recíprocas. - Digite todas que quero montar seu livro. – Ah?! Não preciso dizer que corri para o nosso computador, novinho, e comecei a digitar. Digitei uns três ou quatro, não me lembro bem por causa do avançado da hora, mostrei a ele. – muito bons. Ligou de volta para sua amiga e disse que o seu filho mais velho era um poeta e que ia mandar as poesias dele pra ela. As minhas poesias? Até há pouco nem eu acreditava nelas. Esmerei-me a digitar ainda mais poesias. Elas pareciam escritas por alguém que realmente acreditava ser um verdadeiro poeta, não desses poetas de fim de noite, um verdadeiro poeta. Acho que o digitar deu-lhes essa cara. Não mais papéis dobrados do fim da gaveta. Textos digitados e com honras patriarcais, eram verdadeiras obras primas.

Não entendo tanto de computadores, mas acho que domino melhor o “Word” que a língua portuguesa. Ao final da transposição (papel, computador), meus primeiros textos estavam quase todos sublinhados de vermelho, infelizmente nenhuma alusão ao tapete da mesma cor. Perdi muito tempo corrigindo-os. Decidi-me por fazer as correções assim que terminasse cada palavra, poderia aprender. Não demorou muito, estava viciado em ser corrigido por ele, o programa dono da verdade. Uma palavra errada, correção. Uma virgula fora de lugar, correção. Um espaço mal distribuído, correção. Ao fim do dia, deparei-me com um poema que era, digamos... politicamente incorreto. Adivinha. Fiquei, por incrível que pareça, parado cerca de dez segundos, uma eternidade em tempos de globalização, esperando uma correção moral por parte do computador. Sim! Uma repreensão ao meu pensamento herege, mal educado e torpe. Sim! Estava ficando louco. Completamente abilolado, embasbacado.

Voltei a minha sanidade (minha porque ninguém entende a minha sanidade) e comecei a rir, na verdade gargalhei, alto pra espantar a loucura. Estava dominado pela tecnologia. As formas repressoras estavam agora incorporadas naquele eletrodominador de mentes. Não tinha mais medo das formas tacanhas, metódicas e intransigentes do português do meu pai. Tinha medo agora desse atrevido utilitário. Ele tentava agora me usar.

Terminei, correndo, o que estava pré-disposto a digitar... não que tenha me dado conta da dominação, teria me rebelado. Mas atendendo ao aviso do meu pai. – Desligue o computador você não ouviu o seu irmão falar do garoto que morreu porque ficou muito tempo em frente ao computador. Isso acaba com os seus neurônios. – Desliguei-o não por medo da perda dos neurônios, até hoje não sei se os tenho, afinal falam isso do videogame, da televisão e do rock’n roll, ou seja, se tive neurônios algum dia devem ter morrido há muito. Quanto ao menino... acredito na morte dele como acredito no bicho papão. Estava cansado.

            Todos foram dormir. Eu também. Não consegui. Estava pensando em escrever. Nem olhei para o computador, muito menos para o meu pai. Escrevi tudo calado. Assim pretendo ficar até conseguir gritar tudo isso aos dois. Enquanto isso... que tal fazer mais algumas poesias. Amanhã tenho que prestar conta aos dois. Afinal sou um poeta. Antes marginalizado, fadado ao fundo da gaveta. Agora digitado, digitalizado, pronto pra viajar de avião e encontrar uma crítica com cartas marcadas (você falaria mal das poesias do filho de um amigo que se orgulha em ter um filho poeta?... Nem eu).


Bitezinhos quando nascem...

(Escrito em 2000... acredito que uma das minhas primeiras crônicas...)